Crônica: Quem Ama, Aduba, Rega e Poda



Já dizia o ditado popular que a ingratidão tira a afeição. Não a ingratidão do não amar, pois não seria amor, mas a ingratidão que se expressa nas pequenas contrariedades na já conturbada batalha que é o convívio diário entre duas pessoas, debaixo do mesmo teto, naquela velha rotina que vai corroendo os alicerces de um relacionamento a dois.

São pequenas coisas, pequenos gestos não muito bem recebidos que vão se acumulando, acumulando e logo, logo, se não resolvidos, digeridos, conversados, vão desaguar numa torrente de reclamações e acusações mútuas sobre quem deveria fazer o que e quando e de quem é a culpa de a relação ter se desgastado.

Misture a isso o orgulho besta de não querer dar o braço a torcer, mesmo sabendo-se estar com a razão. Então fica cada um na sua trincheira protegendo-se dos dardos de acusação e lançando, por sua vez, os petardos de reclamação na direção da testa do outro e, assim, estabelece-se a guerra, retira-se a paz, entra em campo o desgosto, o arrependimento, os gestos frios, a vontade de não ouvir nem a voz, a vontade de sumir, a vontade de não voltar pra casa.

Sabe o que é aquela vontade de não voltar pra casa? ficar um pouco mais no serviço, só pra não ter que encarar aquele clima hostil? Você trabalha o dia inteiro, chega em casa cansado, stressado, tudo o que você mais queria era ser bem recebido, ter paz e tranquilidade. Se você não tem isso, então se pergunta, voltar pra que? melhor ficar no trabalho, que também é uma guerra, mas pelo menos as combatentes do trabalho não vão pra cama com você, em tese.

Os que, como eu, são privilegiados pela excelente terapia da jardinagem, vão entender muito bem. Não basta conseguir um belo jardim, é preciso cuidá-lo, dedicar-se a ele diariamente. No amor a analogia é inevitável, é necessário adubar a terra do nosso relacionamento com os fertilizantes da atenção e do carinho. É imprescindível regar esse relacionamento com a água cristalina do respeito, da dedicação; É preciso podar as arestas da falta de diálogo, das pequenas indelicadezas que machucam. É importante combater as ervas daninhas da falta de sexo, da falta de ajuda na hora de pagar as contas; É preciso acima de tudo saber ouvir o outro, ficar em silêncio quando sentir vontade e respeitar o silêncio do outro. Uma boa parte das verdades não são ditas, estão escritas no olho de quem está calado.

Já dizia o poeta, cuide bem do seu amor, seja quem for. Porque se você não cuidar desse jardim que é o seu relacionamento, as flores vão murchar, os (as) parasitas vão se aproximar, a grama vai secar e logo, logo você não mais achará graça naquele jardim outrora tão florido.

Quem ama, aduba rega e poda... ou começa a plantar outro jardim!


Raimundo Freire.




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